quinta-feira, 21 de julho de 2011

Forno comunitário de Alvarelhos

Forno comunitário de Alvarelhos

Num tempo em que se valoriza tanto a optimização de recursos, recuar uns tempos, analisar como a necessidade aguça o engenho, como o povo dá a volta ás crises e aos problemas que directamente os afectam poderá ser um exercício muito interessante. O espírito comunitário sempre foi um traço vincado que marcou e marca este povo Transmontano, não muito habituado a reclamar do Estado tudo e mais qualquer coisa...
O forno comunitário de Alvarelhos é um marco histórico cultural da freguesia não muito valorizado, mas pelo menos tem se aguentando á erosão dos tempos. Hoje a necessidade de recorrer ao forno comunitário é menor porque foram construídos fornos particulares, porque a oferta em termos alimentares é mais diversificada, porque a população diminuiu e por tantos outros motivos ...
Em alturas festivas, em especial na Páscoa o forno ganha algum do ritmo de outros tempos em que o forno era partilhado e os pães ou folares eram marcados ao entrar no forno para não haver enganos depois de cozidos. O folar tão característico das nossas gentes tem neste e em muitos outros fornos a lenha muito do seu segredo culinário, a cozedura tem muito que se lhe diga. Os saberes ancestrais de como aquecer o forno ou o tipo de lenha a usar o deixar descair o forno antes de enfornar são coisas que não estão escritas em manuais de instruções mas que o nosso povo faz com tal mestria que parece que todos os dias fazem este serviço.
A fornada de pão que enchia uma giga e depois o" tarandeira" onde ficava até ser consumida, sem que ficasse muito enxuto, apesar de ser consumida dias para não dizer semanas depois, coisa quase impossível nos nossos dias...
Curiosa era a prática corrente do torna pão que consistia em emprestar pão ao vizinho ou vizinha até que esta cozesse e tornasse aquilo que tinha pedido emprestado, ninguém regateava o tamanho ou o sabor do pão que tinha sido alvo de empréstimo, reforçando desta forma os laços de comunidade.
Outra lembrança que guardo é a de uma malga de barro maior que o vulgar que ficava depositada em casa da Sr. Maria do Carmo com um bocado de massa fermentada que depois era utilizar como levedura na nova fornada. Esta levedura ia rodando pelos utilizadores do forno que tinham a obrigação de deixar a malga cheia para o próximo utilizador do forno.
O sentido comunitário das nossas gentes sempre foi muito apurado, não é por acaso que somos uma terra que tem baldios de utilização comum, regadio de utilização e limpeza comuns , existiu em tempos o Tronco que servia para ferrar, para olhar ou até para vacinar os animais mais ariscos também de uso comum, para lá de outros equipamentos que existem nesta e em muitas outras terras Transmontanas para os quais o Estado não contribuiu com como é o caso da casa paroquial que só foi possível pela força férrea do lider paroquial da altura o Rev.Padre Delmino, que muito ajudou esta freguesia com do seu esforço físico, intelectual e monetário.
A água do regadio " andar á roda" para de uma forma simples se tornar eficiente e ao mesmo tempo um bem disponível para todos. Ao domingo e quinta -feira é para o jericó das hortas da Água - levada o restantes dias a água rodava pelos campos onde chegava o rego. Hoje como diria o Sr. Brás " até se verte" porque há pouco para regar mas este equipamento ancestral registou talvez muitas das mais acesas quezílias entre vizinhos pois muitas das vezes era tornada por alguém mais desesperado que não queria ver passar sede ao seu "renovo" e infringia o que estava estabelecido, tempos houve em que se regava de noite e de dia com a ajuda de uns lampiões a petróleo para ver se a àgua chegava ao fim do rego.
A confecção do pão que é um dos alimentos base da alimentação das nossas gentes é uma tarefa muitas vezes partilhada e com um ritual cadenciado, quase sagrado onde a invocação a algo superior é inevitável pois um pequeno erro pode deitar por terra uma fornada de pão. Desde o aquecer do forno o amassar o pão , o deixar levedar, o rapar o forno, o deixar descair o forno, o enformar do pão, a oração após a entrada do pão no forno , o cozer do pão o retirar do pão do forno e dar-lhe a palmadinha para ver se já está cozido são tudo pequenos pormenores que fazem a diferença.
Somos um povo crente e temente a Deus e em grande parte das nossas actividades sejam elas laborais ou lúdicas a invocação a algo superior acontece e o fabrico do Pão não é excepção, daí a oração que diz o nosso povo após a entrada do Pão no forno seguida do sinal da cruz com a pá que enfornou o pão " Cresça o Pão no forno o bem por o mundo todo e a paz em casa do seu dono em honra de Deus e da Virgem Maria um Pai Nosso e uma Avé Maria."
Muitos são os ditados populares relacionados com esta temática tal como "Haja saúde e coza o forno" que é um sinal de que pelo menos a fome não atingia as suas gentes que desde que haja pão e vinho já se anda o caminho ...


Henrique Rodrigues

2 comentários:

  1. Olá! Você tem um site interessante. É bom para visitar aqui.

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  2. Caro Henrique Rodrigues,
    Antes de mais deixe-nos felicitá-lo pelo seu blogue, um espaço de Trás-os-Montes para os transmontanos.
    O site do qual somos administradores http://portugalriolivre.blogspot.pt/ pretende ser um espaço de vivência e partilha, congregando aqueles que amam Trás-os-Montes em geral e as terras entre o Tâmega e o Rabaçal em particular.
    Como espaço aberto que é, pretende-se que possa receber as contribuições de todos aqueles que as desejem ver publicadas, sendo que para isso as deverão enviar para endereço riolivre@outlook.fr http://portugalriolivre.blogspot.pt/2014/01/increver-se_30.html
    A sua visita e/ou participação será muito bem-vinda e uma enorme ajuda no sentido de preservar estas terras, tirá-las do esquecimento a que estão votadas e, se possível, revitaliza-las dando-lhe a importância que as suas gentes, quer sejam residentes ou na diáspora, merecem.
    Para que não resista apenas a saudade, assente nos escombros do que já foi vigor, contamos com a sua ajuda, assim contribua, colabore e divulgue Rio Livre Trás-os-Montes.
    Desde já o nosso muito obrigado, Equipa Rio Livre.

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